quinta-feira, 8 de outubro de 2009

CONVERSAS

MORFINO: Por que entrevistas?
REIFF: É um jeito que eu encontrei de explorar o sabor coloquial do diálogo, o frescor da conversa. Eu sempre adorei programas de entrevistas.

MORFINO: Até que ponto o artista vê a realidade ou vê a sua própria realidade projetada?

REIFF: Eu viajo muito. Quando caio em mim sempre caio no lugar errado.
Já vivi muito a condição de "corpo presente" (faz as aspas com os dedos). Mas hoje a minha viagem tem sido sobre coisas que vejo e não tanto sobre as que simplesmente imagino.
Tenho sido mais observador. Mas acho que como o olhar eu jogo meu pó de pirlimpimpim.


MORFINO: Me parece que o bom entrevistador, ou âncora de talk show, deve ter um senso de presença quase budista, para brincar com o frescor da conversa. O que faz um bom talk show?
REIFF: Gosto muito de programas de entrevistas, especialmente quando o entrevistador é um bom conversador. O cara precisa gostar de ouvir. Senão não dá jogo. Não dá liga.

MORFINO: Por que Papo Costurado?
REIFF: Eu procuro costurar as minhas idéias, antes que elas voem. (risos)

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O HUMOR E O JAZZ

MORFINO: Woody Allen toca semanalmente seu clarinete numa banda de jazz. Luis Fernando Veríssimo toca sax. Tem feito até uns shows com os irmãos Caruso. Qual a relação que você vê entre o humor inteligente e o jazz?

REIFF: O jazz é inteligente porque não se apóia em coisas requentadas, assim como o humor inteligente. Eu acho que o jazz é um estado de espírito libertário, que acolhe a diversidade, e que traz o frescor da improvisação. Eu penso que em ambas as coisas se busca sair do óbvio.

MORFINO: Freud dizia que o humor promove a "economia psíquica", fazendo com que a psiqué estabeleça associações inusitadas, encurtando os tortuosos caminhos defensivos da mente. Assim, o humor teria uma função terapêutica, tanto quanto o sonho. Em outras palavras, o humor reduziria as resistências imposta pelo superego, permitindo que a energia psíquica encontre mais facilmente seus próprios caminhos. O jazz também teria uma função assim?

REIFF: O jazz está muito associado à improvisação, que se contrapõe às formas rígidas e acabadas. Eu não tenho dúvida de que a música, mais livre, proporciona algumas respostas emocionais interessantes para quem faz e para quem ouve. A sinergia entre os músicos também cria experiências mágicas. Acho que a própria vida disponibiliza esse encantamento, quando estamos perfeitamente sintonizados com o que está rolando, sem julgamentos e avaliações. Deixando o ego de lado, nós experimentamos um tipo de transcendência. O humor e o jazz, por proporcinarem um estado de fluência, produzem uma extraordinária resposta terapêutica, especialmente para os neuróticos e os reprimidos, como são boa parte desses humoristas que trabalham com o humor inteligente, entre os quais eu modestamente me incluo.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

MINIMAL

MORFINO: Você disse que a sua arte está na busca da simplicidade. Você não corre o risco de ser superficial?
REIFF: Acho a simplicidade uma coisa paradoxalmente profunda. A simplicidade mexe com arquétipos. Diz muitas coisas nas entrellinhas. Coisas que, lá no fundo, a gente já sabe. Despir a arte de todos os ruídos desnecessários é o que me inspira. Até porque eu acho que isso muda a maneira de vermos a própria vida.

MORFINO: Como?
REIFF: Quando eu falo menos, dou espaço pro outro ouvir a sua própria voz, que, em última instância, é o que ele precisa ouvir. Quanto menos elementos eu dou, mais a imaginação do observador se encaixa. A função última da arte é fazer com que cada um ouça o próprio coração.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

AS FACES DO HUMOR

MORFINO: O humor tem infinitas caras. Existe um denominador comum entre elas?
REIFF: O humor tem a função de nos deixar menos anestesiados. Ele quebra paradigmas. Portando o humor é um instrumento de evolução espiritual. Ele areja as nossas percepções a ponto de nos fazer voar.
O humor nos deixa mais imaginativos. Mais criativos. Mais perceptivos. Mais afetivos. De que mais nós precisamos?

MORFINO: Você não acha que tem uma visão muito romantizada, poética, a respetio do humor?
REIFF: Pra mim, o humor e a poesia são coisas muito próximas e nos permitem driblar o fisiologismo da mente, que usa sofisticados mecanismos para que não percebamos a farsa que é a sua existência. O humor e a poesia nos fazem trancender a nossa tacanha visão da realidade. E certamente nos deixam mais sábios.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

SUCESSO

MORFINO: O tema do nosso papo hoje é o preço do sucesso. Não seria o sucesso mais massacrante do que tudo que se tem que fazer pra chegar lá?

REIFF: Não sei, porque não cheguei lá. A propósito, onde é esse "lá"?

MORFINO: Aquele lugar onde se olha no espelho e diz: "e agora, José?"

REIFF: Eu me pergunto isso o tempo todo. Me encanto é com a inquietação da jornada. Acho perfeito aquele poema "Ítaca", do Konstantinos Kavafis, que começa dizendo "Se partires um dia rumo a Ítaca,faz votos de que o caminho seja longo,repleto de aventuras, repleto de saber." O lugar a chegar, a meu ver, é um lugar interior. Se os aspectos pueris do sucesso nos distraem, roubando a atenção que deveríamos dar ao que nos diz nossa alma, eles devem ser cuidadosamente deixados de lado. Sucesso é poder pagar as contas fazendo aquilo que o coração manda.

MORFINO: O sucesso reconhece o que é bom?

REIFF: Nem sempre. Muitas vezes dá-se o nome de sucesso a uma trama orquestrada por jogos de interesses. Embora eu ache que o que é bom, mais cedo ou mais tarde, sempre será reconhecido. E quem chega num lugar de simbiose com a arte não está preocupado com os louros, que sempre serão menos gratificantes do que a própria experiência artística.

MORFINO: Mas as oportunidades para o artista, em termos de patrocínio, por exemplo, dependem de um reconhecimento público, ao qual damos o nome de sucesso. Assim o sucesso não passa a ser importante para a própria produção artística?


REIFF: Eu acho que cada artista tem o público que merece. Na medida em que um fazer artístico vai se depurando, vai se refinando, ele é capaz de penetrar no espírito das pessoas, iluminando-as também.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

SOBRE A FELICIDADE

MORFINO: Você se diz um cara feliz, num mundo em que as pessoas parecem cada vez mais infelizes. Você não tem medo do olho gordo?
REIFF: Até tenho. Mas eu não seria infeliz só pra não sofrer a sua influência. Além do que eu acho que felicidade é uma coisa que passa. E acho que felicidade é uma coisa profundamente simples, apesar de ser uma coisa profundamente sofisticada.

MORFINO:Então qual é a fórmula da felicidade?
REIFF: Cada um tem a sua fórmula. Pra mim é fazer o que o meu coração manda. É ser verdadeiro consigo mesmo. O que é mal é que a gente raramente pára pra realmente se ouvir.

MORFINO: E você pára?
REIFF: Agora eu consigo perceber melhor os ciclos da vida. Continuar num ciclo que já passou traz uma enorme infelicidade. A felicidade é um estado natural das coisas.
Quando eu brigo menos com as coisas, elas brigam menos comigo. Sei lá. Tudo tem a sua razão de ser. Se a gente pensar com o coração, vai entender.

MORFINO: E o que é pensar com o coração?
REIFF: É deixar a intuição falar um pouco. E imaginar que tudo nos acontece por um bom propósito e na hora certa. Isso dá um relaxamento pra gente encarar com mais presença as coisas que acontecem. Eu procuro passar pouco tempo lamentando. Não foi, não era pra ser. Pronto.

MORFINO: Isso parece sabedoria popular.
REIFF: E é. Na sua simplicidade, o povo é sábio. Sabedoria não tem nada a ver com erudição. Tem a ver com o coração. E tem a ver com o que lá no fundo todos nós já sabemos. É por isso que eu gosto dos ditados populares. Eles nos lembram daquilo que nós já sabemos.

sábado, 9 de maio de 2009

CADA UM COM SEU CADA QUAL

Morfino encontra Márcio Reiff em sua varanda. O entrevistador recaptula alguns pontos que gostaria de tocar durante a entrevista e liga o gravador:
MORFINO: O que vem antes, o artista ou sua arte?
REIFF: Caceta...Ambos vêm juntos. Mas não me pergunte por quê.

MORFINO: Você acha que a arte pode ser uma pulsão, uma força de propulsão, uma labareda que incendeia o espírito do artista?
REIFF: Caceta...Amarra o homem! (risos) Eu acho que sim. Quando eu sinto vontade de dizer alguma coisa eu sinto que essa coisa é muito maior do que eu. E essa percepção é minha religião. Eu, artista, sou um serviçal. Tenho que andar pelas ruas, ver as coisas, prestar atenção nas conversas que movem o mundo. Mas a arte é uma energia sábia, que passa por tudo isso e dá um sentido. Que nos dá algum tipo de insight.

MORFINO: Você acha que a arte seria uma energia do inconsciente coletivo de Jung?
REIFF: Pode ser. Tem aquela estória de que a gente "somos antenas". E acho que somos mesmo. Todos. Em maior ou menor grau. Mas quando a gente vai reduzindo a nossa identidade, vai rolando um espaço pra fluir o coletivo, que é muito rico. Temos a oportunidade de beber de bilhões de vidas conectadas. Olha o repertório que estamos ganhando. E cada um vai achando o seu cada qual, os seus cada quais.